Considerações

 



 

Não pilotamos aviões, mas temos brevê em tutorias de maquiagem pelo You Tube. Compramos bugigangas influenciadas pelas blogueiras e somos donas de boletos com números, ás vezes, misteriosos. A recente compra é um espelho “mara”, como dizem as influencers. E esse tal espelho tem aquelas luzinhas fofas, à la camarim de celebridade. E celebridade é tipo o deus da galera digital, de modo que, parece ser bom que o espelho faça semelhante alusão ao universo dos holofotes.

 

Ansiosa para testar aquela engenhoca de beleza, corro para a penteadeira e acendo as lâmpadas e, é claro que esse objeto é para uso de peritos, pois tem até o lado que aumenta o rosto. E cá estou, encarando meu “rostão” e é notável como pipocam algumas considerações em um repente.

 

Primeira Consideração: vou admitir, estou ficando velha. Não quero reconhecer, mas é um fato. Esse dilema incontestável vai ficando evidente quando menos espero. A cara está despencando já faz um tempo, mas finjo que não vejo. Até que, um certo dia, e esse certo dia é hoje, graças a essa bodega de espelho/luneta da Nasa. E enquanto me maquio noto sutis linhas ao redor dos olhos. Nada de mais, penso. Afinal, devem ser marcas de riso. Mas, afinal, o que foi assim tão engraçado, me questiono. Meto na cabeça que de agora em diante vou rir com menos frequência, sai mais barato para a vaidade e para o espírito. E antes de tudo, um ar blasé me cairá muito bem no fim das contas. Deve me dar um toque de mistério e sofisticação, como nas francesas. E todos admiram a beleza e elegância dessas europeias, não é mesmo?

 

Segunda Consideração: está decidido, agora sou uma autêntica francesa!

 

O processo de maquiagem demora um pouco mais de que o habitual, isso porque fico vasculhando a cara a procura de mais estrago. Tal qual um cachorro de aeroporto que revira uma bagagem suspeita.

 

Em algum momento termino a maquiagem e não sei como fiquei exausta física e emocional. De certo que o resultado é completamentemagistralmentecolossalmente diferente do que aprendi, ou pensei ter aprendido, no último tutorial na internet. Mesmo assim me olho com admiração, pelo menos não estou mais com aquela cara lavada dos infernos.

 

Apago a luz do espelho potencializador de defeitos da face e me dirijo para o copo de vodca. Preciso de um relax depois de tanta surra de beleza. Até porque, se um gole não acalmar os nervos, pelo menos vai ser bom para acabar de uma vez com a garrafa.

 

Terceira Consideração: será que estou me tornando alcoólatra?

 

Toda maquiada e já meio anestesiada da dose, sou tomada de um sentimento de culpa. Se estou ficando menos jovem e ligeiramente bebum, me pego fazendo uma retrospectiva da minha vida. Nem de longe me sinto a mais realizada criatura de Deus. E já que citei Deus, não custa nada falar com Ele agora… mas espere, como vou conversar com o Criador com esse bafo de querosene? Melhor me recompor um pouco e continuar a tentativa de contato noutro momento.

 

Quarta e última consideração: preciso passar no mercado para comprar mais uma garrafa.

 

Quinta e, desta vez, última (mesmo) consideração: devo lembrar de mencionar em meu contato com Deus sobre esse lance da decrepitude. Não gosto disso de ficar velha. E também irei agradecer por conseguir transformar indagações como essas em histórias, gosto de ser criativa. Só espero que Deus não leve tudo o que digo muito a sério, e talvez possamos rir durante o papo. Claro, de minha parte nada de rir demais, por precaução.

 

 

 

 

Crédito das imagens: Visual Hunt

 

 

1 Comentários:

  1. Bom mesmo é seguir em frente sem nos culparmos; afinal, toda casa necessita de uma nova pintura nas paredes, afim de se renovar...

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