À melhor gata de toda Via-láctea!


Te conheci por volta de meus treze anos, talvez mais, ou menos… o fato é que eu ainda brincava de Barbie e jogava fliperama no botecão perto da igreja – sim, bar e igreja coexistindo na mesma rua, só para deixar registrado por aqui. Daí te escutei, feito sirene do Corpo de Bombeiros seu chamado buscava se fazer notar. Era noite e estava bem quente. Uma escada de poucos degraus nos separava. Quando meu olhar te encontrou, seu miado foi agudo de urgência, de solicitação. Tomei sua forma pequena, ainda na idade de filhotinha, lembro de pensar sobre como, daquele momento em diante, seríamos uma da outra.

E você foi, foi, na verdade, a melhor gatinha que eu poderia sonhar ter. Minha mãe te batizou de Estrupício porque você se portava feito um esquilo virado na cafeína! (risos). Mas para os chegados era tratada por “Trupício”. Ativa e notívaga, como todo felino é, assim sua rotina transcorria.

Embora a medicina veterinária diga que gatos não pegam carrapatos, tu me trouxe alguns, bem me lembro. Um deles, creio que o primeiro, morou no meu pescoço uns tempos. Pensei que fosse uma daquelas verruguinhas normais, porém, a birosca foi ficando maior e vi que era um parasita - Deus amado!

O segundo que você trouxe de suas andanças no mato morou perto do meu umbigo. O danado ficou até maior que o primeiro. Bom, depois do terceiro comecei a me preocupar de verdade. Como tínhamos por hábito dormir aconchegadas, precisei repensar essa postura. Afinal, se continuássemos assim grudadas eu corria o risco de tornar-me uma pensão de carrapatos. A desloquei para sobre as cobertas, aos meus pés. No início você teimava, mas logo se adaptou.

Depois da nova dinâmica, nunca mais tive verrugas sugadoras de sangue. Ah, tive sarna uma vez, lembra do outro gato que morava na casa, o Tigrão? Ele me passou sarna, mas nada que uns banhos de enxofre não resolvessem e, bem, o Tigrão fica para outro artigo, pois este é todo seu, Trupi!

Voltando de onde parei, lembro que brincávamos de esconde-esconde pela casa. Daí quando você me encontrava demonstrava alegria miando ruidosamente. E no momento de tomar banho eu já sabia que teria sua companhia, também. Deitadinha em cima do vaso sanitário você me esperava. “Oi, Trupi” – eu falava de vez em quando, colocando a cabeça para fora da cortina de plástico do box. Recordo de seu olhar significativo e verdadeiro, cheio de respostas, das mais sinceras.



O tempo foi passando e sua vida andava ao lado da minha. E chegou o dia em que arrumei um estágio na área de minha vocação. Eu estava com dezesseis, e você comigo há pelo menos três ou quatro anos. Tivemos tempo para sermos inseparáveis, todo aquele tempo da pré-adolescência em que minha única responsabilidade era a escola. Só que no primeiro dia de estágio eu beirava aquela transição entre a brincadeira e a responsabilidade. Acordei muito cedo, me aprontei e saí pelo portão para, o que seria, o primeiro de muitos dias da vida de adulta. Lembro que tu ficou desorientada, porque eu dormia um pouco mais antes de ter de ir para a escola, até então, meu majoritário dever.

Você me seguiu um quarteirão inteiro, miando, como se perguntasse aonde raios eu estava indo. “Fica aí, a noite estou de volta”, falei. Você ficou, porque foi o gato mais inteligente de todo o mundo, e eu olhava de vez em quando para trás, e você esperou até eu sumir de vista. Poxa, Trupi… meus olhos marejaram naquele dia de quebra de ciclo, dos ciclos da vida, pois é.

Encontrei uma nova rotina para nós e você se encaixou nela, porque a vida não tem senso de humor, pelo menos, não o tempo todo.

Os anos passaram e eu estava de casamento marcado, e minha mãe achou melhor eu não te levar pra morar comigo. A mudança implicava em irmos de vez para São Paulo, tu ficaria sozinha o dia todo e só nos veríamos de noitinha. A rua da minha nova vida era barulhenta e movimentada. Você já se habituara ao cotidiano de gata do interior, com árvores para subir e banhos de sol no gramado, embaixo do nosso pé de pêssego - que só dava fruta bichada, vale lembrar.

E mais uma vez, rompemos um ciclo. Meu quarto de solteira ficou para meu irmão mais novo. A mãe contava que você continuou dormindo lá. Mas agora não era meu pé que você aquecia, era o daquele chato (risos). Pra te trazer à memória, coloquei algumas fotos suas na nova casa. Mas eu sabia que sua qualidade de vida era maior, com meus pais.


Quando ia visitá-los, já aproveitava para pernoitar e, aí, era como se nunca tivéssemos nos separado. Os meus pés voltavam a ter seu calorzinho.

E mais uns anos se passaram, porque tu tinha uma saúde do caramba, devo dizer e, claro, agradecer por isso. No entanto, aquele velho vigor foi ficando menor, e eu compreendo. O peso dos anos lhe caiu nos ombros de gatinha miadora. Seus dentinhos a abandonaram aos poucos até somente restar alguns caninos mais persistentes. Sei que a idade deve ter te enchido as paciências, imagino bem. Se equilibrar em cima do muro já era penoso, e foi ficando mais difícil subir em árvores, até que tornou-se impraticável. Tu virou uma gata de sofá, quietinha, mas ainda miadora e digna de muito respeito.

Meu irmão adotivo, o Mickey - pois de sangue tenho o chato do Vitor e o bobão do Heytor (risos). Eu sei o quanto ele te paparicava quando ia nos meus pais. Sou grata por você ter tido tantos adoradores. O Mickey te apelidou de “Santa Pício”, e sua fama e longevidade espantava a todos.

E mesmo que achasse, na verdade, até já havia me convencido, tu seria imortal. Nada, nem o tempo ou a fraqueza da idade, ou mesmo a falta dos dentes, lhe tiraria a garra das patas e a fome de viver. Mas Deus cria os meios para descobrirmos como funciona o coração. É quando a gente sente o foice daquele aperto no peito que começamos a saber e, amargamente, compreender que as coisas precisam de um desfecho.

Suas idas ao veterinário foram ficando mais frequentes, mas mesmo assim, só quando muito necessário. Você tinha forças. Foi o bichano mais valente que já tive. Passei a telefonar para a mãe diariamente, para saber de sua saúde.

Até que, certo dia, meu marido e eu chegamos aos meus pais e você tinha sido levada ao veterinário naquela manhã. E esperei, rezando baixinho. Não demorou muito e a mãe e meu irmão, Vitor, te trouxeram já sem vida. Sim, tu se foi num repente para mim. Trupi, Santa Pício… você nem me esperou para dar adeus. Tu chegou ainda quentinha, porque era fato recente, a sua partida mal tinha uma hora. Acariciei sua cabecinha de gata não mais miadora. Me lembro de chorar tanto, e de ficar machucada por dentro muitos e muitos meses depois. E ainda dói, como doeu escrever isso, mas é uma promessa que fiz a mim mesma: de escrever para você, depois que partisse. Sou de pagar promessas, agora sabe.  

Te sepultamos perto de uma árvore, na viela que tanto você perambulou atrás de passarinhos. Eu queria ter posto você no quintal de casa, mas meu pai ficou com medo de estourar um cano - Malditos canos! - Como a engenharia da hidráulica poderia importar mais do que dar a minha melhor amiga de bigodes um lugar de descanso digno? Aparentemente, para meu pai os canos falaram mais alto naquele dia.

Eu com a melhor gata do mundo <3 ao lado, a melhor gata do mundo se aquecendo no moletom.


Me perdoa Trupi, me perdoa por qualquer falta que eu tenha lhe causado. Nunca vou esquecer seu miado ou a sua face rajadinha de vira-lata bagunceira. Ou de quando você me procurava pela casa, me chamando para brincar. Nunca mais vou te ver dormindo em cima do velho televisor dos meus pais, e no coração ficou um buraco impreenchível. Pois essa lacuna foi totalmente edificada por você. É solo sagrado, te prometo!

E de tudo que aprendi ao desfrutar sua companhia felina, é engraçado a reflexão a seguir, de que, imagine isso, e pensar que até dos carrapatos vou sentir saudades. Espero um dia te ver novamente, cheia daquela saúde e energia, miando ao desenhar círculos ao meu redor. Afinal, foram quase vinte e cinco anos da sua vida dada à minha confiança. Sinto sua falta, tenho imagens suas no coração que nunca vão dissipar.

Te amo para sempre! Muito obrigada por ter sido minha amiga, Santa-Pício!







0 Comentários:

Postar um comentário

Quer adquirir meus livros?

ENTRE EM CONTATO COMIGO